domingo, 23 de junho de 2013

Para desenterrar o grande cepo do poema e voltar a enterrá-lo (Miguel-Manso)

"Aquele que caminha de um lugar que não sabe
a um lugar que não pode, meteu agora pela travessa dos arcanos
das difíceis coisas mínimas que enxameiam sob a terra
e por cima dos joelhos
mudará de arredores com a leve motricidade vocabular
até lhe arderem todos os aspectos, as visões
e o prodígio se transforme em préstimo elucidário de nenhuma
sabemos já, alegria ou valimento
está certo: um erro em muitos erros deixará o ledor (quem é?)
boquiaberto
provado parentesco o nosso
na verdejante paisagem do exuberar mental: um escreve escuro
montanhoso; o outro repara, se repara, nesse nexo
solitário e da linhagem de Anthero
pouco chic, hoje, este infortúnio dos versos
o diabo
da ideia, sinuosamente entrecortado de proveitos poucos
onde a mais teclada carne não é mais que o corpo
velho chamado Humanidade
por ora, todavia, o destapar dos detalhes não supera
a rotativa duração que nos transporta, nem esta monografia
conversa com a grandíloqua divindade, conserva
o gesto que se dirige ao gigantesco assunto de que nunca
ouviremos falar
vou dizer-vos
eu estava em deslocação pela noite do metro, olhando
o meu reflexo no vidro, atravessando aquele medo
havia, por cima e em volta, essa mesma claridade que nos engana
quotidianamente
então eu via o meu reflexo, parado, e para lá do meu parado
reflexo passavam num relâmpago sucessivo e baço
as paredes do sentido (o túnel) riscadas de coloridas tubagens
ora
eu estava parado dentro do movimento vasto do engano
lembrei-me de sonhar que podia ser tudo aquilo verdade
a associada circunstância de eu estar morto, de eu estar vivo
de ser esse o exacto, irresoluto, lugar da poesia" Miguel-Manso



B.

I'm Waiting Here...



B.

terça-feira, 18 de junho de 2013

L o n g e

...hummmm...

longínquas paragens essas...
distâncias imensas...
saudades enormes...

"Algum dia, talvez dentro de pouco tempo, construirei um barco muito grande; que possa flutuar como os barcos e voar como os aviões, apesar de ser um barco; que possa circular sobre a terra e por baixo de água como um barco com rodas, como uma nave submarina." in A grande viagem de Anna Castagnoli & Gabriel Pacheco

Para que consiga rapidamente raptar-te e ficar ao teu lado, simplesmente.




B.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Algumas proposições com pássaros e árvores (Ruy Belo)


 “Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração” Ruy Belo








B.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Metafísica (Fiama Hasse Pais Brandão)

"Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.
Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,

concebe o não conceber" Fiama Hasse Pais Brandão




B.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sem Ti (Eugénio de Andrade)

"E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas." Eugénio de Andrade, Coração do dia






B.