quarta-feira, 20 de março de 2013
absolute Nature
E quando o instagram apresenta aquelas cores monocromáticas, chatas e tão retro, eis senão quando lá no alto do céu, a Natureza nos presenteia com um lindo coração de algodão.
Afinal, pergunto eu, para quê uma foto instagram?
A-M-O-T-E
M-U-I-T-O
M-E-U
A-M-O-R
M.
domingo, 17 de março de 2013
absolute Instagram
AMOR,
As nossas viagens são dolorosas. Ainda hoje penso onde nos querem levar. E já lá vão quase 4 anos...
Sempre que partes, atrás de ti fica um rasto de dor e saudade que invade o meu espaço de forma abrupta e violenta. Irrompe por entre janelas e portas e penetra com tamanha força que me arrasta para o silencio. São precisos dias para que volte ao meu estado normal.
Desvio o olhar e a imaginação para o dia em que te volto a ver. Para aquele momento em que sinto a chave a abrir a porta da nossa casa e tu, pé ante pé, sem que eu perceba, já estás com os braços à volta da minha cintura, num abraço longo e demorado. E aqui perco-me no teu cheiro e na tua boca macia e tão carnuda.
Passo horas assim, num estado absoluto de dormência e assim me fico até não me lembrar mais que amanha será outro dia e que tudo será igual.
Não fossem os efeitos do instagram e o meu coração permaneceria pintado de preto, os cinco dias da semana...
M.
(Vi)age(m) - Parte 2
Pensei e voltei
a pensar| qual a razão e a importância de escrever a parte 2 de (vi)age(m)|
ainda suspiro e olho o horizonte antes de iniciar a escrita| hoje, é novamente
domingo| não aquele domingo da parte 1| mas mais um domingo, longe de ti| fecho os olhos e recordo a paisagem daquele
dia| o azul tomou conta do céu soprando para longe as nuvens que me
acompanhavam na escuridão do coração| a ponte da barragem está calma| no meio,
a pequena ilha, com os três pinheiros, observam o pôr-do-sol| sigo, sim, sigo
para norte| com o desnorte da saudade de ti| as aves também estão em fuga|
aqui, junto da casa minimalista do pinhal, um homem lavra a terra| dizem que o
domingo é o dia do Senhor, mas também há quem defenda que é o dia do sol| não
sei| a indiferença de uns é a profecia de outros| pensei que hoje não os via|
mas eles passaram apressadamente para cumprimentar| são pretos, monogâmicos e
altamente hierarquizados| os corvos| andam agitados, amanhã deve estar vento
(dizeres dos antigos)| já foram| e tu também estás longe| engraçado, também
esta estrada está vincada| os rasgos parecem provocados pelas toneladas do
sofrimento de ausência| aqui há árvores| sabes que as árvores contam histórias
de encantar?| caminho pela estrada fora, no black| não precisa gps ou sistema
de navegação| sobe a serra para o outro lado, volta a correr para o lado de cá,
desce ao rio, para chegar ao mar| foge do gelo, vagueia pela neve e leva-me,
leva-me, leva-me| o longe, o perto| a distância| os paralelos das povoações
marcam o ritmo desta parte da viagem| começo a descer até à ponte que marca o
início de outro distrito| conheces| lá em baixo os salgueiros começam as
crescer e ganhar as vestes verdes para abraçar os ninhos dos pássaros| a água
do degelo corre apressada em busca da cidade do fado| já vejo bem a serra
nevada| o seu brilho dá-me um alento para a semana que amanhã começará| o
telefone tocou| aconchegado ao meu pescoço e em voz alta oiço-te| estou a
chegar| passei os semáforos| disse olá à nossa casa| subi e estacionei junto ao
canteiro das tulipas e margaridas| no verão é onde moram os pirilampos|
desligo| já cheguei| subo ao meu mirante| o saco que carrego, desce do ombro|
os movimentos robotizados de fim-de-semana percorrem a roupa e os cheiros de
ti| apetecia-me dançar contigo| até já| para a semana não te vejo| só na outra
a seguir, pois| este tempo que nem a minha caixa de música ajuda a passar|
enfim| mais uma semana de trabalhos| estes trabalhos, mais os trabalhos que não
consigo deixar de absorver pelas negativas energias de seres que jamais o
serão| como é possível sobreviver à estupidez humana e ao meu excesso de peito
exacerbado| vês quase que me perco no negativo| queria-me em ti| isso sim, vale
a pena sentir| problemas tornam a minha carapaça ainda mais forte| quero
acreditar que a minha paixão não morre nunca| gosto disto e daquilo, e descobri
isto e aquilo, vou mostrar-te aquilo e mais outra coisa| perdi-me novamente nas
músicas| o meu castelo terá grandes janelas| e a porta receberá os(as)
amigos(as)| personagens interessantes e escassas| mas únicas nas verdades da
partilha| anda dá-me a mão| vou levar-te ali| as palavras fazem-me perder|
julgo que a velocidade dos pensamentos e sonhos me atraiçoa a velocidade da
escrita| aprendiz, até ao último dia| bom, esta parte 2 é tão estranha e
envolvente como a primeira| sou quase absurda como Beckett (happy Days)| desejo
que cada dia seja um dia feliz para todos(as)| e lembrem-se de ir, agir e
viajar| até sentados naquela cadeira de pedra conseguiremos levitar| anda vem
comigo na (Vi)age(m)| amor.
B.
Amor (Jorge de Sena)
"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam" in Peregrinatio ad loca infecta
B.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Hoje...
Gostava de ir em tua direcção| longe fico | preciso partir para junto de ti| o pavor assume o resto deste meu dia | a cada minuto se aproxima mais a certeza que não estarei ao teu lado, daqui a pouco | a neblina entardece a tarde | a saudade gigante está prestes a metamorfosear-se | rapidamente, será monstro | o teu sono que protejo | não estás aqui | escutas-me ao longe? | cortei o cabelo | a minha avô aconchega-me lá do azul celeste faz já 7 anos | a maquete do novo projecto está praticamente criada| bem, a bem da verdade, as possíveis maquetes estão sonhadas | sabes, é um prazer estar naquele teu território, lado a lado com os Phoenicopterus roseus e dos Himantopus himantopus | o tempero da tua presença torna-me eterna | amo-te, mais uma vez| consegues ver-me a voar na nuvem que vagueia do teu lado esquerdo, junto aos arrozais, enquanto conduzes rumo ao mondego? | beijo, suave |
B.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
(Maria do Rosário Pedreira)
(Maria do Rosário Pedreira)
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.
Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.
Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.
M
M
terça-feira, 12 de março de 2013
Amor como em Casa (António Pina)
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é
Apenas um Pouco Tarde"
B.
B.
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