domingo, 17 de março de 2013

(Vi)age(m) - Parte 2



Pensei e voltei a pensar| qual a razão e a importância de escrever a parte 2 de (vi)age(m)| ainda suspiro e olho o horizonte antes de iniciar a escrita| hoje, é novamente domingo| não aquele domingo da parte 1| mas mais um domingo, longe de ti|  fecho os olhos e recordo a paisagem daquele dia| o azul tomou conta do céu soprando para longe as nuvens que me acompanhavam na escuridão do coração| a ponte da barragem está calma| no meio, a pequena ilha, com os três pinheiros, observam o pôr-do-sol| sigo, sim, sigo para norte| com o desnorte da saudade de ti| as aves também estão em fuga| aqui, junto da casa minimalista do pinhal, um homem lavra a terra| dizem que o domingo é o dia do Senhor, mas também há quem defenda que é o dia do sol| não sei| a indiferença de uns é a profecia de outros| pensei que hoje não os via| mas eles passaram apressadamente para cumprimentar| são pretos, monogâmicos e altamente hierarquizados| os corvos| andam agitados, amanhã deve estar vento (dizeres dos antigos)| já foram| e tu também estás longe| engraçado, também esta estrada está vincada| os rasgos parecem provocados pelas toneladas do sofrimento de ausência| aqui há árvores| sabes que as árvores contam histórias de encantar?| caminho pela estrada fora, no black| não precisa gps ou sistema de navegação| sobe a serra para o outro lado, volta a correr para o lado de cá, desce ao rio, para chegar ao mar| foge do gelo, vagueia pela neve e leva-me, leva-me, leva-me| o longe, o perto| a distância| os paralelos das povoações marcam o ritmo desta parte da viagem| começo a descer até à ponte que marca o início de outro distrito| conheces| lá em baixo os salgueiros começam as crescer e ganhar as vestes verdes para abraçar os ninhos dos pássaros| a água do degelo corre apressada em busca da cidade do fado| já vejo bem a serra nevada| o seu brilho dá-me um alento para a semana que amanhã começará| o telefone tocou| aconchegado ao meu pescoço e em voz alta oiço-te| estou a chegar| passei os semáforos| disse olá à nossa casa| subi e estacionei junto ao canteiro das tulipas e margaridas| no verão é onde moram os pirilampos| desligo| já cheguei| subo ao meu mirante| o saco que carrego, desce do ombro| os movimentos robotizados de fim-de-semana percorrem a roupa e os cheiros de ti| apetecia-me dançar contigo| até já| para a semana não te vejo| só na outra a seguir, pois| este tempo que nem a minha caixa de música ajuda a passar| enfim| mais uma semana de trabalhos| estes trabalhos, mais os trabalhos que não consigo deixar de absorver pelas negativas energias de seres que jamais o serão| como é possível sobreviver à estupidez humana e ao meu excesso de peito exacerbado| vês quase que me perco no negativo| queria-me em ti| isso sim, vale a pena sentir| problemas tornam a minha carapaça ainda mais forte| quero acreditar que a minha paixão não morre nunca| gosto disto e daquilo, e descobri isto e aquilo, vou mostrar-te aquilo e mais outra coisa| perdi-me novamente nas músicas| o meu castelo terá grandes janelas| e a porta receberá os(as) amigos(as)| personagens interessantes e escassas| mas únicas nas verdades da partilha| anda dá-me a mão| vou levar-te ali| as palavras fazem-me perder| julgo que a velocidade dos pensamentos e sonhos me atraiçoa a velocidade da escrita| aprendiz, até ao último dia| bom, esta parte 2 é tão estranha e envolvente como a primeira| sou quase absurda como Beckett (happy Days)| desejo que cada dia seja um dia feliz para todos(as)| e lembrem-se de ir, agir e viajar| até sentados naquela cadeira de pedra conseguiremos levitar| anda vem comigo na (Vi)age(m)| amor.






B.

Amor (Jorge de Sena)


"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam"  in  Peregrinatio ad loca infecta






B.




sexta-feira, 15 de março de 2013

Hoje...

Gostava de ir em tua direcção| longe fico | preciso partir para junto de ti| o pavor assume o resto deste meu dia | a cada minuto se aproxima mais a certeza que não estarei ao teu lado, daqui a pouco | a neblina entardece a tarde | a saudade gigante está prestes a metamorfosear-se | rapidamente, será monstro | o teu sono que protejo | não estás aqui | escutas-me ao longe? | cortei o cabelo | a minha avô aconchega-me lá do azul celeste faz já 7 anos | a maquete do novo projecto está praticamente criada| bem, a bem da verdade, as possíveis maquetes estão sonhadas | sabes, é um prazer estar naquele teu território, lado a lado com os Phoenicopterus roseus e dos Himantopus himantopus | o tempero da tua presença torna-me eterna | amo-te, mais uma vez| consegues ver-me a voar na nuvem que vagueia do teu lado esquerdo, junto aos arrozais, enquanto conduzes rumo ao mondego? | beijo, suave |








B.










quarta-feira, 13 de março de 2013


Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
(Maria do Rosário Pedreira)

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ―  as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

M


terça-feira, 12 de março de 2013

Amor como em Casa (António Pina)


Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"











B.

domingo, 3 de março de 2013

Assim o Amor (Sophia de Mello Breyner Andresen)

“Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa.”



in “Obra Poética







B.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Amor (Eugénio de Andrade)

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
Assim é o amor: mortal e navegável.
in "Obscuro Domínio"