domingo, 17 de março de 2013

Amor (Jorge de Sena)


"Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem,
como não amam se de amor não pensam
os que de amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos,
mas só amamos quando amamos o acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar o amor não amam"  in  Peregrinatio ad loca infecta






B.




sexta-feira, 15 de março de 2013

Hoje...

Gostava de ir em tua direcção| longe fico | preciso partir para junto de ti| o pavor assume o resto deste meu dia | a cada minuto se aproxima mais a certeza que não estarei ao teu lado, daqui a pouco | a neblina entardece a tarde | a saudade gigante está prestes a metamorfosear-se | rapidamente, será monstro | o teu sono que protejo | não estás aqui | escutas-me ao longe? | cortei o cabelo | a minha avô aconchega-me lá do azul celeste faz já 7 anos | a maquete do novo projecto está praticamente criada| bem, a bem da verdade, as possíveis maquetes estão sonhadas | sabes, é um prazer estar naquele teu território, lado a lado com os Phoenicopterus roseus e dos Himantopus himantopus | o tempero da tua presença torna-me eterna | amo-te, mais uma vez| consegues ver-me a voar na nuvem que vagueia do teu lado esquerdo, junto aos arrozais, enquanto conduzes rumo ao mondego? | beijo, suave |








B.










quarta-feira, 13 de março de 2013


Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
(Maria do Rosário Pedreira)

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ―  as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

M


terça-feira, 12 de março de 2013

Amor como em Casa (António Pina)


Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa. in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"











B.

domingo, 3 de março de 2013

Assim o Amor (Sophia de Mello Breyner Andresen)

“Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa.”



in “Obra Poética







B.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Amor (Eugénio de Andrade)

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
Assim é o amor: mortal e navegável.
in "Obscuro Domínio"

domingo, 17 de fevereiro de 2013

(Vi)age(M) - parte 1

O sono interrompido pela fresta atrevida e luminosa da janela/o suspiro enquanto os corpos se fundem de prazer/o calor presente/odores vespertinos/ os pés/as passadas no chão flutuante/abres a torneira/sentidos perfumados enquanto a tristeza se apodera de nós/a procura canina de brincadeira com a ternura da sua paciência/calço-me, finalmente/a mesa/ a janela aberta para os sons da pequena floresta de eucaliptos que te avizinha diariamente/os vossos passos na rua a fugir à pressa da partida/ o saco já espera à porta/ o abraço furtivo/ o teu olhar depois da minha saída/ o elevador chegou e entro sem olhar para trás/caminho em direcção/a chuva disfarça a lágrima corajosa que fugiu/entro no carro e olho-te na janela dentro de casa/sigo/no carro o som da chuva não esconde o vibrar das tuas palavras ao meu ouvido/ pelo telefone/falamos no início da viagem/sigo/agora longe vou contar-te o que Vi/age sempre em busca do amor m/ o cinzento do dia completa o quadro de nuvens num céu pouco azul/na estrada fixo algo mas o olhar liberta-se/um bando de corvos marinhos atravessa o canal que alimenta os arrozais junto à fábrica branca abandonada/os barcos ali parados algures no rio/os campos perdem água/estão lavrados, já/verdes e coloridos pela realeza cinzenta das garças/uma aqui, outra a 20 metros de bico elevado como que a terminar o banquete matinal/mais uma, e outra e outra e olha outra/que bela manhã para observar aves/mas começo a afastar-me da brisa marítima/o cheiro a sal foge/ uma rapina espera no poste de madeira junto à comporta do canal/a casa abandonada/uma mulher de negro encostada á parede a olhar o pequeno cão castanho/um carro de mala aberta ao lado/o homem que segura a cana de pesca/mais gente de mota, no caminho de terra, se aproxima com canas/desvio o olhar para a minha esquerda/uma cegonha fez-me rodar a cabeça, ela plana e por fim pousa sobre o solo do arrozal/três cavalos, um branco, um pequeno e castanho e outro russo estáticos apreciam a queda suave das gotas de chuva, junto às ruínas do antigo armazém que sucumbiu ao tempo e às intempéries/ou então sorriem para a coragem de dois primos equídeos que permanecem em campo aberto, indiferentes, a pastar/garças boieiras, garças brancas, gaivotas, mais duas rapinas que sobrevoam a auto estrada/Greg Laswell, Other Lives, Birdy, Wild Beasts, Paper Lions, The XX, Ludovico Einaudi e a tua voz povoam-me até aqui/contínua a viagem/os campos já ficaram para trás, como tu/perco-te e ganho estas imagens de aves e árvores/ sim a árvore grande junto ao rochedo contínua com o olhar vincado no horizonte/os pinheiros ladeiam-na, mais a baixo eucaliptos, eucaliptos, eucaliptos/onde estão as árvores/campos cultivados e algumas casas/ há rochas ali/ o céu ficou mais azul/ carros/carros/carros/ começo a afastar-me do Mondego/sei que amo a minha serra, mas a coragem de lutar pela ausência de ti, começa a fazer-me mal/achas que a Primavera está a chegar?/em breve partirei da minha montanha/voltarei de férias para procurar os meus cheiros, os meus lugares, as histórias dos meus avós/passo junto ao rio que alimenta a cidade dos estudantes/as escadas do fado são para todos os seres/olho estas margens e as grandes árvores soldado que as protegem/ambas tristes e assustadas pelo sofrimento das lampreias, também elas em luta, mas de sobrevivência/em frente já vejo as montanhas/olho a serra rodeada de guardas nuvem/vejo aqui pinhal/ali o pinhal de outrora/os moinhos em cima da montanha/dizem adeus ou abraçam à chegada/as mimosas estão floridas/carros que partem e chegam aos destinos.(Parte 1)

p.s Fecha os olhos e escuta-me ao teu ouvido. No gira-discos  já é Primavera com Einaudi. Beijo.



B.