Mostrar mensagens com a etiqueta um poema por semana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta um poema por semana. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

De Longe Te Hei-de Amar (Cecília Meireles)

"De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?
E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.” Cecília Meireles, in Canções

B.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Se houvesse degraus na terra (Herberto Helder)

"Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã." Helberto Helder

B.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Corpo (Al Berto)

“corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo.” Al Berto, in 'A Noite Progride Puxada à Sirga'



B.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Um Céu e Nada Mais (Ana Luísa Amaral)

Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor, nem inocência. 
Um céu e nada mais.” Ana Luísa Amaral in Às Vezes o Paraíso

B.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Blues da morte de amor (Vasco Graça Moura)

“Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.” Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

B.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Liberdade (Miguel Torga)

“— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.  
Mas a tua bondade omnipotente Nem me ouvia.
 — Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração.  
Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.” Miguel Torga

B.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O labirinto (Jorge Luís Borges)



“Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.” Jorge Luís Borges


B.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quando ficamos como assim (José Luís Peixoto)

"Quando ficamos como assim, a ouvirmo-nos e a falarmo-nos, somos capazes de descobrir muito mais do que todos eles, obedientes e assustados.
Como aqui, assim, estas palavras a levarem esta voz fazem-nos saber que estamos juntos, mesmo quando não há uma sala com estas paredes e só conseguimos duvidar e duvidar desta verdade.
Estamos juntos, mesmo quando nos separarmos pelas ruas e, dentro de nós, somos um exército de segredos, mesmo quando nos escondermos do mundo que desejamos e que desejamos indescontroladamente, desincomparavelmente, como um silêncio que mente e mente e não mente.
Estamos juntos no silêncio, apesar desta voz carregada por estas palavras, apesar das formas todas dos nossos corpos e dos desenhos que somos capazes de fazer com o olhar. As nossas mãos procuram-se à noite, dentro das luzes apagadas. As nossas mãos, nossas, encontram-se agora e são invisíveis. Sabemos que os nossos dedos tocaram outros dedos, tocaram nomes e cordas de guitarra. Sabemos quem somos. Somos muitos e sabemo-nos reconhecer. Assim, como aqui, esperamos a madrugada, sabendo que fomos nós, juntos, que a construímos. Esperamos muito mais do que a madrugada.
Temos a força de para sempre, aprendermos a renúncia de nunca mais. A disciplina está enterrada naquilo que não é medo, é força, e que nos protege, que nos protege de nós próprios. Esta voz, se eles conseguirem entender esta voz, mudaremos de língua. Esta voz é esta sala. Esta voz são os caminhos que fizemos à margem das cidades e de argumentos razoáveis. As palavras são pedras. As certezas perseguiram-nos e abrandamos para que nos alcançassem.
Agora, controlamos pontes e quotidianos. Agora, esta voz dirige-se ao teu rosto.
Nada nos é impossível. Nem mesmo o impossível nos é impossível. Explicamo-nos uns aos outros e, sem que ninguém nos perturbe, encontramo-nos sempre como agora, aqui, assim, como agora, aqui, assim." José Luis Peixoto In Gaveta de Papéis


B.

domingo, 20 de outubro de 2013

Definição (Nuno Júdice)

”Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os própnos
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.”  Nuno Júdice in "Um Canto na Espessura do Tempo"

B.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

As Coisas Mais Simples (Nuno Júdice)

“Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.” Nuno Júdice in “Poesia Reunida”


B.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

De cara a la Parede (A Naifa)

“Oiço ainda os corpos  vincar a noite
um campo minado
de corações tristes
explodindo o rosto na parede
foi talvez a nossa última canção
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes
voltei a ela muitas músicas depois
foi talvez, a nossa última canção
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
um terrível verso solitário
e a culpa, de a ter levado
a um coração onde as canções
onde as canções
morreriam de frio
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar
o coração, que me deixaste 
é uma casa difícil de habitar” A Naifa



B.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Peça Nocturna (Thom Gunn)


“O nevoeiro vagueia lentamente pelo monte abaixo
E à medida que subo torna-se ainda mais denso,
Encerra-me dentro de si, faz-me seu
Como roupa de cama na pedra da calçada.
Aqui se situam as últimas poucas ruas que falta escalar,
Galerias, atravessam veias de tempo,
Quase familiares, onde rastejo
Para o sono como nevoeiro, através do nevoeiro como sono.”  Thom Gunn


B.

sábado, 28 de setembro de 2013

É por Ti que Vivo (António Ramos Rosa)

“Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.”  António Ramos Rosa in “O Teu Rosto”

B.

domingo, 22 de setembro de 2013

A Língua (Maria Teresa Horta)

"Quanto mais lenta
é a língua
             ( a tua língua)
mais breves são os lábios
e sobretudo os dentes
a resvalarem breves na saliva
misturada já
no cimo do meu ventre
Quanto mais branda
é a língua
            ( a tua língua)
mais deliciosos são os lábios
e as gengivas
a enrrijecerem
com a avidez do suco
que brota logo do fruto
da vagina
Quanto mais leve
é a língua
             ( a tua língua)
mais pesado é o hábito
que circula
enovelando o que sobra ainda
de lucidez
de prazer
e gula" Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo



B.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cada um Cumpre o Destino que lhe Cumpre (Ricardo Reis)

"Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado." Ricardo Reis, in "Odes" 


B.

sábado, 7 de setembro de 2013

O Encontro Algures (MJ)

“A presença na escuridão faz sentir o toque da pele
enquanto
o encontro da luz captura a silhueta nos olhares,
a metáfora insipiente da
ausência não rasga o contraste do território,
 o barulho que embala cada caminho é um bosque em perfeito
 desencontro.
que pode a sabedoria perdoar quando a fuga simples e maquiavélica partir,
 o julgamento começa aqui
junto da parcela celular.
e adormecer é quase uma escassez de recursos mas
raiar e luar não são actividades verbais do fugitivo.
 As cidades são pessoas pessoas com invisíveis sonhos e viagens no mundo.
 Mergulhando nas nuvens flutuam sempre os medos.
 As perfeições são ilhas que alicerçam as capacidades
 as virtudes fantasmas que anseiam  presenças
dos sentidos pêsames das perdas.
O encontro algures.”    MJ in Caderno IV do Palavras com Tempo


B.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Da alma, e de quanto tiver (Luís de Camões)

 “Da alma, e de quanto tiver
Quero que me despojeis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.

Cousa que este corpo não tem
Que já não tenhais rendida;
Depois de tirar-lhe a vida,
Tirai-lhe a morte também.

Se mais tenho que perder,
Mais quero que me leveis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.” Luís de Camões


B.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Se vai tentar (Charles Bukowski)

"Se vai tentar
siga em frente.
Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.
Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...
A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.
Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito

É a única coisa que vale a pena." Charles Bukowski




B.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ele procurou por muito tempo (Thomas Möhlmann)

“Cada passo diminui e aumenta o número de possibilidades
mas não as possibilidades que ele procura
tem de haver outro caminho que não este, mas assim que ele o toma,
tem de haver outro caminho. Abordou pessoas

apresentou-se sob nomes diferentes e perguntou se
as pessoas sabiam onde estavam. No mar alto, no umbigo do mundo
à beira de jardinzinhos bem-tratados: ninguém sabia.
Onde o ar era tão rarefeito que ele tinha vertigens, onde

 o ar denso lhe cortava a respiração, onde todos
se ofendiam mutuamente, onde ninguém se atreveria ir,
onde todos deveriam ter estado: ninguém sabia.” Thomas Möhlmann


B.

Casa das Sementes (António Osório)

"É triste não possuir uma casa de sementes 
Não adianta amar essas partículas ali ociosas,  
nem desejar que nidifiquem sem granizo  
e irrompam como a chama de uma vela.  
   
É triste pagar um preço pelo que há-de nascer,  
que o bersim perca a cor alazã penetrando na terra      
e o trevo da Pérsia alimente a boca das reses.  
     
É triste que não recusem essa densa, pródiga,  
obstinada servidão, a vitalidade apaixonada pelo sol,          
e não façam, como um camponês, as suas contas,  
exigindo a Deus e aos homens o salário da maquinação." António Osório




B.