"Eis a minha filosofia:
Tudo muda (a palavra «tudo»
acabou de mudar tal como
a palavra «mudar»: agora
significa «sem mudança») tão
rapidamente que literalmente ultrapassa o meu entendimento,
acelera e passa por cima dele
tal como algumas das gigantescas
ideias nesta área.
Não tive princípio e não terei
fim: o facho de luz
estende-se para trás e para a frente
e eu cozinho os vegetais
apenas por alguns minutos,
quanto menos, melhor. Barrar
com manteiga e servir. Aqui está a minha
filosofia: barrar com manteiga e servir." in Poemas Escolhidos de Ron Padgett
B.
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018
quarta-feira, 22 de março de 2017
O peso dos outros (Cláudia R. Sampaio)
"Ao Homem tanto faz a natureza
se anda abismado, com outros
às cavalitas
quando chega à meta
já os perdeu a todos
e depois é que olha o céu
e sente a chuva, tão nova
ao Homem tanto faz o verbo
se se multiplica pelos actos
quando dá por ele, já são muitos
e depois a terra abala-se
e é a cabeça que inventa deus
a mim, tanto me faz o Homem
sou espuma na onda
desfaço-me mas volto
e só existo de vez em quando." Cláudia R. Sampaio
se anda abismado, com outros
às cavalitas
quando chega à meta
já os perdeu a todos
e depois é que olha o céu
e sente a chuva, tão nova
ao Homem tanto faz o verbo
se se multiplica pelos actos
quando dá por ele, já são muitos
e depois a terra abala-se
e é a cabeça que inventa deus
a mim, tanto me faz o Homem
sou espuma na onda
desfaço-me mas volto
e só existo de vez em quando." Cláudia R. Sampaio
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
O Eremita Viajante (Matsuo Bashô)
o coração viajante não se enraíza
antes quer ser
braseira ambulante in "O Eremita Viajante", de Matsuo Bashô
B.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
As Coisas Transitórias (Rabindranath Tagore)
"Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te." Rabindranath Tagore, in O Coração da Primavera
B.
domingo, 31 de julho de 2016
Amor à Primeira Vista (Wislawa Szymborska)
"Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio." Wislawa Szymborska
B.
terça-feira, 26 de julho de 2016
Hoje, também os carros dançam (Filipa Leal)
"Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se
levemente. E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de
palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu –
que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de
clima... Eu – que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de
crenças e de céu... Eu – que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que
mudei de planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e de
rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de
tudo que em quase nada mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu
amor." Filipa Leal in Talvez os
Lírios Compreendam, 2004
B.
segunda-feira, 21 de março de 2016
E Porque é o Dia Mundial da Poesia...
"na hora de pôr a mesa, éramos
cinco:
o meu pai, a minha mãe, as
minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais
velha
casou-se. depois, a minha irmã
mais nova
casou-se. depois, o meu pai
morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos
cinco,
menos a minha irmã mais velha
que está
na casa dela, menos a minha
irmã mais
nova que está na casa dela,
menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva.
cada um
deles é um lugar vazio nesta
mesa onde
como sozinho. mas irão estar
sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos
sempre cinco.
enquanto um de nós estiver
vivo, seremos
sempre cinco." José
Luís Peixoto in A Criança em Ruínas
"Limpo de tédio os meus olhos
para te receber,
ó primavera, e um dilúvio de
miosótis faz-me regressar
à estação das chuvas, ouvindo o
correr das águas
numa impaciência de estuário.
Lanço a pedra do outono
contra o anjo cego da
madrugada, e as suas asas
estendem-se sob as nuvens que
desceram até ao campo
onde a pastora se perdeu do
rebanho, e me pergunta
o caminho para a última
clareira do vale. Sento-me
ao seu lado, sob o freixo
antigo, e o vento convalescente
do temporal seca-lhe as
lágrimas, enquanto a dispo
da sua túnica de écloga, para
que o seu corpo beba
um licor de pétalas
adormecidas.
«Nestas encruzilhadas, o amor
virá ao vosso
encontro, ó amantes incertos!
Trará nas suas mãos
as cinzas quentes de um vago
desejo, e pedir-lhes-á
que as apanhem, para que um
fogo de imagens
os empurre um contra o outro!»
Foi o que a pastora me contou,
com a sua voz enrouquecida pela
noite; e fez-me folhear
as páginas do seu corpo em
busca de um verso esquecido,
como se o pudesse esculpir na
sua pele. Mas as suas mãos
prendiam o tempo, e os seus
olhos abriram-me
o labirinto para onde me
chamou, no convite
impaciente das amadas sem
destino – essas que
deixaram no horizonte sem névoa
o sulco de um reflexo." Nuno Júdice in Navegação de Acaso
“Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do
amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas
em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de
trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não
estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia
palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu
nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço.
Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as
pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de
ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que
quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me
quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca
quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes?
Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o
pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que
adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me
convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e
tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um
minuto.” Filipa Leal in Egoísta n.º 32
B.
domingo, 30 de agosto de 2015
Mais Beijos (Judith Teixeira)
“Devagar...
outro beijo... ou ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!
Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!
Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
— que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!” Judith Teixeira in Antologia Poética
B.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Príncipe no Roseiral (Matilde Campilho)
“Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.” Matilde Campilho
B.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Deixa o tempo fazer o resto (Ana Paula Inácio)
"Deixa o tempo fazer
o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia
abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto." Ana Paula Inácio in Modo de Usar & Co
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia
abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto." Ana Paula Inácio in Modo de Usar & Co
B.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Segredo (Maria Teresa Horta)
“Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche
o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar.” Maria
Teresa Horta
B.
B.
terça-feira, 19 de maio de 2015
Se terminar este poema, partirás (Maria do Rosário Pedreira)
“Se terminar
este poema, partirás. Depois da
mordedura vá do
meu silêncio e das pedras
que te atirei
ao coração, a poesia é a última
coincidência
que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a
mesma neblina que impede a
memória límpida
dos sonhos e confunde os
navios ao
retalharem um mar desconhecido
está dentro dos
meus olhos — porque é difícil
olhar para ti
neste preciso instante sabendo que
não estarias
aqui se eu não escrevesse. E eu, que
continuo a
amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das
montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque
o poema é o único refúgio onde
podemos repetir
o lume dos antigos encontros.
Mas agora pedes-me que pare, que fique por
aqui,
que apenas
escreva até ao fim mais esta página
(que, como as
outras, será somente tua — esse
beijo que já
não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo
sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos
para sempre, sei que te perderei
em qualquer
caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto,
se o interromper, desvanecer-se-á
a última
coincidência que nos une.” Maria do Rosário Pedreira
quarta-feira, 25 de março de 2015
Herberto Helder RIP (1930-2015)
“Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão
sentados, fechando os olhos,
Com os livros atrás a arder para
toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se
profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e
obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De Paixão.” Herberto Hélder, Ofício Cantante in Poesia Completa
B.
domingo, 15 de março de 2015
Tens agora um mar aberto a inundar-te o olhar (Graça Pires)
“No ventre da tua mãe começaste a
amar as águas.
E soubeste como se abrem os diques
da pele
para jorrarem em litorais onde
explodem
as marés assediadas pela lua.
Depois quiseste ser cais e barco,
âncora e vela, abrigo e naufrágio.
Tens agora um mar aberto a
inundar-te o olhar.
Para sempre.” Graça Pires in De Espaço livre com barcos, 2014
B.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Amor (Adília Lopes)
“O amor
é foda
o amor
é boda
(a senhora sabe
da poda?)
o amor
está sempre
fora
de moda
é preciso amar
atrever-se a amar
andar com este
e com este
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa
Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembra-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim” Adília Lopes In
Florbela Espanca Espanca Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE
B.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Os Deslimites da Palavra (Manoel de Barros)
“Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando
amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma
folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um
grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas”
Manoel de Barros
domingo, 30 de novembro de 2014
A Voz que Nos Rasgou por Dentro (Nuno Judíce)
“De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?
Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.
E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos reconhecido
outrora, onde está?
A voz que dança de noite, no
inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.
Diz: "Não chores o que te
espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos.”
Como se a ouvíssemos.” Nuno
Júdice in Meditação sobre Ruínas
B.
sábado, 9 de agosto de 2014
Pernoitas em Mim (Al berto)
“Pernoitas
em mim
e
se por acaso te toco a memória... amas
ou
finges morrer
pressinto
o aroma luminoso dos fogos
escuto
o rumor da terra molhada
a
fala queimada das estrelas
é
noite ainda
o
corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço
com a nómada solidão das aves
já
não possuo a brancura oculta das palavras
e
nenhum lume irrompe para beberes.”
Al Berto in “Rumor dos Fogos”
B.
sábado, 22 de março de 2014
Escrever (Bernardo Soares)
"Escrever
é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música
embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm.
A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas,
contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e
portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso". Bernardo Soares in Livro do Desassossego
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso". Bernardo Soares in Livro do Desassossego
B.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Princípio do prazer (Vasco Graça Moura)
“À sua volta os pombos cor de lava
nos
arabescos pretos do basalto
e
gente, muita gente que passava
e
se detinha a olhá-la em sobressalto
no
seu olhar havia uma promessa
nos
seus quadris dançava um desafio
num
relance de barco mas sem pressa
que
fosse ao sol-poente pelo rio
trazia
nos cabelos um perfume
a
derramar-se em praias de alabastro
e
um brilho mais sombrio quase lume
de
fogo-fátuo a coroar um mastro
seu
porte altivo punha à vista o puro
princípio
do prazer que caminhava
carnal
e nobre e lúcido e seguro
com
qualquer coisa de uma orquídea brava
e
nas ruas da baixa pombalina
sua
blusa encarnada era a bandeira
e
o grito da revolta na retina
de
quem fosse atrás dela a vida inteira.”
Vasco Graça Moura in "Antologia dos
Sessenta Anos"
B.
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